Freelancers e tempo livre

 

Desde o início do ano tenho-me obrigado a reservar tempo livre na agenda.

Pode parecer contra-intuitivo, mas aquilo que na minha experiência em empresas era uma ocorrência natural, no meu dia-a-dia de freelancer deixou de acontecer.

Em consultoria, que é a realidade que conheço melhor, é comum haver uma alternância entre períodos de pico e fases de acalmia. É o ritmo do negócio. 

Em contextos em que o trabalho é pago à hora, no entanto, o tempo livre passa a ser visto como não faturável, logo não produtivo, logo não útil. 

Um estudo publicado em 2007 no Academy of Management Journal demonstrou que pessoas que são pagas à hora se mostram menos disponíveis para fazer trabalho que não traga retorno financeiro imediato. A expressão “tempo é dinheiro” adquire uma conotação literal. 

Não abordando sequer a importância de ter uma vida completa, diversificada, em que o trabalho ocupa um lugar saudável e de equilíbrio face a todas as outras dimensões que importam, e focando-nos apenas no critério de “utilidade”, é fácil compreender que o tempo livre é necessário para garantir quatro dimensões que afetam o resultado do próprio trabalho:

Inspiração

É hoje comummente aceite que o processo criativo começa com uma fase de pesquisa, mesmo que ela não seja consciente ou guiada. Ter experiências que saem da rotina e conhecer realidades diferentes da nossa é essencial para criar um reservatório de inspirações que, mais cedo ou mais tarde, se combinam para gerar novas ideias e abordagens. 

No meu trabalho, vejo isto acontecer com regularidade, como quando a biografia do Leonardo da Vinci serviu de ponto de partida para um workshop sobre gestão de conhecimento, ou quando um jantar foi fonte de inspiração para um artigo

If you charge people money for creative thinking, please – find the time to get lost down rabbit holes. - Alex Morris

Geração de ideias

Muitas vezes as soluções para os problemas que temos em mãos surgem quando estamos a fazer algo não relacionado com trabalho - a tomar banho, a andar de carro, a estender a roupa, a dar um passeio ou a conversar com um amigo - e este processo, por mágico que possa parecer, está estudado e documentado pela ciência. 

Há inúmeros exemplos de artistas e cientistas cujas rotinas incluem estes momentos intencionais de pausa - basta pensar em Aaron Sorkin e os seus oito banhos diários, Darwin e as suas caminhadas pelo Passeio dos Pensamentos, ou Marie Curie e o jardim de rosas que cultivava ao seu laboratório em Paris. 

Aprendizagem

Num podcast que ouvi recentemente sobre Diversidade e Inclusão, o psicólogo organizacional Adam Grant colocava a hipótese de que um trabalhador pago à hora pudesse estar menos disponível para “investir” quatro horas do seu tempo numa formação sobre enviesamento inconsciente. 

Pareceu-me um bom exemplo porque, não sendo uma formação técnica nem obrigatória, poderá ser importante para a natureza das relações que se estabelecem com clientes, parceiros e colegas. Num dos meus blocos de tempo livre, aprendi por exemplo que usar um bom microfone em seminários online pode ser importante para a inclusão de pessoas surdas, porque a qualidade do som afeta a acuidade das legendas automáticas.

Descanso 

Quando engravidei, o obstetra que me acompanhava sugeriu que marcássemos todas as consultas do primeiro trimestre entre as duas e as três da manhã. Talvez não seja de espantar, tendo em conta o que escrevi até aqui, mas na altura fez-me questionar a sua capacidade de julgamento e tomada de decisão (e, claro, mudar de médico). 

No meu trabalho, as consequências da falta de descanso tenderão a ser menos graves, mas não deixarão de ter repercussões diretas na qualidade do que faço - a “fadiga de concentração” de que fala Jerry Seinfeld. 

Part of your job is not doing your job. - Eddie Shleyner

Num trabalho que dependa de inspiração, geração de ideias, aprendizagem e descanso (haverá algum que não dependa?), o tempo livre não pode ficar apenas para quando estamos de férias (pode já ser tarde), para quando for oportuno (nunca é), ou para quando o ritmo abrandar (todos os incentivos são para que não abrande).

E tu, tens agendado tempo livre?

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